“Oh! Que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais.” Quem nunca se pegou suspirando de saudades, entrando em um túnel do tempo e relembrando uma época em que ser criança era bom demais?
Não sou nenhuma velha e minha infância não faz parte de um passado distante, sou da geração anos 80 e tenho apenas 26 anos. O meu saudosismo vai além da doce saudade que sinto dos meus brinquedos, amigos e escolas. Digamos que essa nostalgia é mais uma preocupação com o futuro do que realmente uma saudade do passado. Explico: temo que eu tenha feito parte da última geração de crianças de verdade. Quando me pego perdida em lembranças, penso nas crianças de hoje e na minha criança de amanhã.
Assim como toda mulher, também sonho com meus futuros filhos. E é aí que a saudade do passado bate com mais força. Como vou fazer com que meus filhos sejam crianças? Atualmente, as procuro nos parques, nas escolas e até mesmo na televisão e o que eu encontro são pequenos adultos, meninos e meninas prodígios, que conversam, debatem, discutem e são sem dúvida nenhuma um poço de inteligência e graça. Mas e a inocência, as brincadeiras, a infantilidade?
Outro dia, em um restaurante, atrás de mim estava sentada uma família. Após meia hora, a menininha começou a choramingar. No lugar não havia distrações para ela, pensei entendendo o tédio que ela devia estar sentindo cercada por adultos e sem nenhum brinquedo, já apoiava a causa dela quando ouvi sua mãe dizer: - O que foi? Está parecendo uma criancinha choramingando desse jeito. Você já tem seis anos, suas amigas não fazem mais isso, elas sabem se comportar.
Seis anos? Com essa idade eu vivia de joelhos ralados, com o pé preto de correr descalça, o cabelo curto por causa de piolho e se ia para algum restaurante, levava comigo minhas bonecas, ou meu aquaplay para me distrair. Naquela época, os adultos pareciam ETs e eu não fazia questão nenhuma de falar a mesma língua que eles. No final dos jantares, minha mãe costumava ter sempre que ir me buscar na cozinha do restaurante, ou na recepção, onde eu já tinha arrumado um jeito de convencer um garçom ou a recepcionista, a brincar comigo.
As minhas brincadeiras eram as mais variadas possíveis. Gostava de ser Xuxa, Changeman, de dançar lambada e sonhava em ser um dia a rainha da primavera na escola. Naquela época, música de criança era música de criança. E como era bom ter a companhia da “rainha dos baixinhos”, dos “Trapalhões”, “Chaves” e “Chapolim”, “Punk, a Levada da Breca” e tantos outros personagens que preenchiam os horários da TV com fantasias e sonhos.
Hoje, acabou a inocência. Tudo mudou! Ah... é a tecnologia, a evolução! É o que dizem... Será? Os desenhos infantis têm mesmo que passar por essas transformações? A Cinderela não pode ser apenas a Cinderela? Pinóquio não pode voltar a ser o filho de madeira do velhinho Gepeto, que mente porque não quer estudar e por isso o nariz dele cresce? Esses dias vi o mesmo Pinóquio da minha época, vendo o seu nariz crescer ao dizer que não usava calcinha. Shrek é mesmo um filme para crianças?
As crianças de hoje, são o futuro da sociedade amanhã. De que forma estamos construindo esse futuro? Precisa-se de inocência, sonhos, fantasias, contos de fadas. Precisa-se de pés no chão, joelhos ralados, piolhos. Onde foi parar Papai-Noel, o coelhinho da Páscoa, a fada dos dentes? Por que o Capitão Gancho não assusta mais e por que no lugar das espadas, dos combates armados nos plays, terrenos das casas, os meninos preferem brincar com armas, atirando em homens quase de maneira real, em uma tela de computador? Por que a Xuxa não volta a ser a Rainha dos Baixinhos? E por que os desenhos não voltam a ser sobre mundos mágicos, ursinhos carinhosos e moranguinhos? Por que não existem mais os “disquinhos”, mesmo que fossem em cd, mas que despertassem a imaginação das crianças na hora de dormir. Desenterrem “Pedro e o Lobo”, “O Soldadinho de Chumbo”, “Os três Porquinhos”. Até mesmo a Chapeuzinho Vermelho ficou louca – Deu a Louca na Chapeuzinho – Não é mesmo isso que o título do desenho sugere? Por que?
Se o futuro da Nação depende das crianças, precisamos encontrá-las. Alguém sabe me dizer o lugar em que elas foram parar? Não quero ter feito parte da última geração de crianças, a inocência não pode ter desaparecido. A minha esperança é que no meio de todos esses pequenos adultos exista ainda alguma espécie dos pequenos antigos, mesmo que em extinção. E é por isso que eu procuro uma criança.
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